Governança Corporativa no Século 21: um paradoxo

“O século 19 é o século dos empreendedores, o século 20 é o da gestão, e o século 21 é o da Governança Corporativa”, afirmou Elismar Álvares, professora da Fundação Dom Cabral, durante entrevista para a própria instituição. A expressão pode até parecer ousada, mas é assertiva: atualmente, a Governança Corporativa é um dos pilares mais importantes da economia global e um dos sistemas determinantes para a longevidade das empresas.
No entanto, nem sempre foi assim. Com o início da Revolução Industrial, no final do século 19, a sociedade começa a passar por uma grande transformação. Nesse período, surgem as indústrias e, paralelo a isso, uma nova forma de fazer e pensar os negócios. Se estabelecem as relações de trabalho e a hierarquia entre patrão e empregado – que, em linhas gerais, se mantém até hoje.
Após a consolidação das indústrias, já no século 20, a relação entre capital e trabalho sofre novamente uma reformulação: passa-se a buscar outras formas de gestão de negócio para além do sistema de troca entre trabalho e salário. Nesse contexto, foram desenvolvidas novas teorias de incentivo à práticas de gestão nas empresas. Porém, elas não bastaram para livrar o universo empresarial de falhas e casos de má gestão.
No período entre o final do século 20 e o início do século 21, surge um novo cenário. Em 1995, no Brasil, nasce o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), organização pioneira em estudos na área. Em 2002, nos Estados Unidos, é sancionada a Lei Sarbanes-Oxley, com o objetivo de criar mecanismos de controle e prestação de contas entre gestores, investidores e acionistas, a fim de garantir a transparência e evitar possíveis riscos aos negócios. Acontecimentos como esses foram, aos poucos, validando as práticas de Governança Corporativa entre as comunidades empresariais em todo o mundo.
A partir da difusão dessas práticas, a Governança Corporativa, que foi originalmente criada para empresas de capital aberto, tornou-se  essencial, inclusive, para empresas de capital fechado, como Empresas Familiares. Amparado pelos princípios da transparência, prestação de contas, equidade e responsabilidade corporativa, esse sistema orienta os membros da empresa e organiza os relacionamentos da família empresária, que deve estar atenta às transformações do mercado e à necessidade de atualizar e analisar o seu papel na sociedade.
Um estudo realizado pelo IBGC em parceria com a empresa Booz & Company, em 2010, apontou que houve uma evolução significativa no reconhecimento da importância da Governança Corporativa nas empresas no Brasil, dado que certifica a difusão da governança nos dias atuais. Em pesquisa realizada em 2016, pela consultoria Deloitte, foram elencados os principais motivos para a estruturação da Governança Corporativa em uma empresa. No levantamento, o aumento da transparência e da qualidade das informações foi citado 84% das vezes e a profissionalização da gestão, 71%. Em paralelo, estudos mostram que o empreendedorismo vem crescendo entre a comunidade jovem.  Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), divulgado em janeiro deste ano, afirmou que se tornar empreendedor nos próximos anos está entre os planos de dois em cada três jovens brasileiros.
No momento atual de desenvolvimento da tecnologia e constantes mudanças, talvez o desafio da Governança Corporativa seja alinhar práticas consolidadas com propostas inovadoras que acompanhem o crescimento exponencial das organizações. As empresas familiares têm como desafio refletir sobre o encontro entre a tradição e os valores do seu negócio consolidado com as novas ideias propostas pelas novas gerações de colaboradores e dos próprios membros da família empresária.  O empreendedorismo não deve ser visto como um antagonista à história da empresa, mas sim como um aliado. É importante repensar sobre a efetividade das práticas aplicadas e não ter medo de modificar processos que tornaram-se obsoletos. Estar disposto a dialogar também é uma prática fundamental de gestão corporativa.

Patrice Gaidzinski

Patrice Gaidzinski é Diretora-fundadora da Posterità – Formação e Consultoria a Negócios Familiares. É psicóloga e especialista em Psicoterapia de Família. Atua como consultora em Empresas Familiares, implementando práticas de Governança Corporativa, auxiliando na elaboração de Acordos de Acionistas, Protocolos Familiares e Processos de Sucessão.

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