Práticas de Governança como mecanismo para retomada da ética no Brasil

Pesquisas sobre o desenvolvimento das empresas e países mostram que a economia mundial é impulsionada por negócios realizados em família. Esta força empreendedora emprega, somente no Brasil, de 50% a 60% da mão de obra em atividade, além de ser responsável por quase 80% do Produto Interno Bruto nacional. Não há como negar a influência da Empresa Familiar na economia nacional brasileira.
Para tal, é imprescindível conhecer a Empresa Familiar e suas características distintas quando comparadas a uma empresa não familiar. Existem peculiaridades quanto à gestão, família fundadora do negócio, cuidado com o patrimônio, processo de sucessão e continuidade das Empresas Familiares através das gerações que necessitam ser entendidos e administrados.
Para tanto, a Governança Corporativa se mostra como um conjunto de mecanismos criados para garantir que os acionistas tenham melhor retorno sobre o seu investimento. Mais do que isso, o significado dessas atividades na prática vai além. Costumo citar que a Governança Corporativa é um conjunto de princípios que, quando exercido com seriedade, busca proteger os acionistas dos potenciais abusos que podem ser cometidos pela diretoria, executivos, conselheiros e até mesmo auditorias externas.
Do outro lado, a Governança Familiar, através do Conselho de Família, órgão destinado a desenvolver a família controladora de forma profissional e organizada, contribui para a reflexão dos membros da família, gerando ações de coesão e diálogos construtivos. Fomentando, assim, o processo de sucessão e a perenidade dos negócios familiares.
É através da Governança Corporativa que os interesses dos gestores (diretores, executivos e conselheiros) se alinham com os interesses dos proprietários da empresa (os acionistas). Então, o chamado “conflito de agência”, muitas vezes o vilão das relações entre negócios e membros familiares, é trabalhado e dirimido, protegendo o interesse primordial: a própria Empresa Familiar.
A partir deste cenário, acredito que a Governança Corporativa é hoje no Brasil um tema de extrema importância. O país vive um momento de profunda mudança nas estruturas de poder e das relações das empresas com seus órgãos de controle internos e externos, com o mercado e com o governo. É a partir da verdadeira adoção de práticas transparentes e de prestação de contas que se atingirá um grau de maturidade e seriedade nas relações de trabalho. As empresas, de uma forma geral, e as Empresas Familiares mais do que nunca, clamam por responsabilidade corporativa e por tratamento justo a todos os seus públicos. Estes são os princípios básicos do bem viver de todos com ética.
O Brasil carece de empresários honestos e dispostos a empregar medidas austeras de mercado e de relações de trocas de bens e serviços. Somente com a adoção de práticas salutares para o crescimento equânime de todos, e não somente de poucos, que se mudará o modus operandi das relações de trabalho e de negócios. A família detentora de um negócio familiar é a unidade primeira responsável por refletir e transformar as suas práticas. Famílias que se preocupam com o desenvolvimento de seus membros, orientando-os e, ao mesmo tempo, oferecendo um olhar carinhoso e disciplinado terão muito mais chances de modificar as formas de relacionamento entre si, entre seus funcionários, clientes, fornecedores e investidores, focos principais da Governança Corporativa.
Apesar de o Brasil ter feitos significativos avanços nos últimos anos na gestão de seus negócios, ainda há um longo caminho para percorrer, principalmente pelas grandes empresas públicas, e na sua inter-relação com as empresas privadas familiares, pois elas são a mola produtora e transformadora da sociedade com seus valores e princípios.
É obrigação das famílias acionistas trabalhadoras e investidoras na sua população local, e com intenção de expansão, iniciarem a mudança e exigirem os seus direitos, assim como dar o devido valor para si e para todos aqueles que acreditaram e acreditam no sonho do fundador do negócio onde trabalham. A ideia inicial do empreendedor fundador precisa ser resgatada e adaptada quando necessário à esta busca de iluminação aos bons princípios. Pois, na sua grande maioria, o fundador nada mais queria do que tornar todos a sua volta felizes, com conforto e dignidade.

Patrice Gaidzinski

Patrice Gaidzinski é Diretora-fundadora da Posterità – Formação e Consultoria a Negócios Familiares. É psicóloga e especialista em Psicoterapia de Família. Atua como consultora em Empresas Familiares, implementando práticas de Governança Corporativa, auxiliando na elaboração de Acordos de Acionistas, Protocolos Familiares e Processos de Sucessão.

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